Afmend Sarmento.

Por Afmend Sarmento

(2) Investir na formação em Llíngua de instrução – pelas opções políticas e constitucionais, adotamos a língua portuguesa como língua de instrução no sistema educativo timorense. Enquanto a língua de instrução, o português torna-se um grande desafio na sua implementação sobretudo no processo de ensino e aprendizagem, quer nas escolas básicas quer nas instituições do ensino superior.

Como nós sabemos, a língua torna-se um veículo essencial para facilitar a transmissão da ciência e tecnologia. Por isso, é urgente investir seriamente na formação da língua de instrução, particularmente da Língua Portuguesa como língua oficial, a par do tétum. Sem o domínio da língua é difícil conceber o domínio das matérias de instrução. Portanto, a formação da língua portuguesa aos docentes torna-se uma necessidade, a fim de promover o uso deste idioma no contexto académico, nas suas modalidades oral e escrita, criando condições para que os docentes desenvolvam as suas competências comunicativas e discursivas, bem como a sua capacidade de utilizar a língua de modo variado e adequado às diferentes situações e práticas sociais.

 (3) Mais investimento para as infraestruturas – a infraestrutura básica torna-se um grande desafio à Educação, a maioria das nossas escolas públicas encontra-se numa condição miserável. Não propícia um ambiente saudável aos alunos para aprenderem a ciência e tecnologia. Não só a falta de salas de aula mas também não há água e saneamento para facilitar os alunos a obterem um ensino de qualidade. As escolas privadas e católicas têm boas condições se fizermos a comparação com as escolas públicas.  Já é tempo de as escolas públicas mudarem de imagem de escolas de segunda classe ou segunda divisão passando a desfilar no topo das escolas de referência em todo o território.

(4) Material pedagógico e outros apoios didáticos são essenciais para a Educação. Timor-Leste é definido como um dos países com a maior taxa de natalidade na região do sudeste asiático, assim, estamos a falhar todos os anos a produzir os materiais didáticos para ajudar o processo de ensino e aprendizagem da nossa massa estudantil. Um dos problemas ad infinitum para o sistema educativo timorense é a falta dos Livros Manuais, pior ainda, não há bibliotecas e laborátorios aos estudantes para praticarem a ciência e tecnologia.

A partir destes desafios, começou a surgir na nossa sociedade timorense os seguintes fenómenos, nomeadamente:

  1. Existe um gap de qualidade entre as instituições educativas.

De facto, a qualidade educativa em Timor-Leste torna-se uma grande preocupação a nível nacional. Em termos de qualidade, as instituições privadas-católicas demonstram um grande avanço em detrimento das instituições públicas. Podemos constatar os output nos resultados finais do exame nacional, normalmente, as instituições privado-católicas ocupam sempre nos rankings dos 10 melhores a nível nacional. Este gap deve-se ao seguintes factos conforme a observação do autor:

  1. Não existem bibliotecas nas escolas para o uso dos alunos como fontes de consultas e fontes de apoios nos seus estudos autónomos.
  2. Não existem laboratórios para fazer experimentações. Segundo o velho adagio latino: Praxis sine theoria est sicut caecus in via, theoria sine praxis est sicut carros sine axi – A prática sem a teoria é como um cego no caminho, a teoria sem a prática é como um carro sem eixo. Há uma mínima divulgação das revistas científicas nas universidades (salvo erro – desculpem, se houver), na qual se possa incentivar a criatividade dos alunos a fazer pesquisas científicas com o intuito de abrir “o leque da inteligência” (A. Cury).
  3. Os docentes não estimulam “a curiosidade epistemológica” (Paulo Freire) dos alunos, com o intuito de “estimular a formação de pensadores e enriquecer a arte de pensar” (A. Cury). Pois, é uma falha da educação no mundo pós-moderno – “a educação nos ensinou a gerenciar máquinas, veículos, indústrias, casas, profissão, mas não a gerenciar os pensamentos”, quer dizer, as instituições não ensinam os alunos a pensar criticamente (ser homo criticus), onde “os laboratórios são as próprias ideias” (Karl Popper), mas a serem apenas os consumidores das informações transmitidas pelos docentes. Numa palavra, tornamos os estudantes numa massa de repetidores de informações e não de pensadores que amam a arte da crítica e da dúvida. Em suma, poderão ser transmissores de informações, mas nunca serão um mestre da vida (A. Cury).
  4. Não fomentamos a “cultura da leitura” na vida quotidiana dos timorenses, nomeadamente os docentes e estudantes. Enquanto, a leitura é a única via para abrir “as janelas da inteligência”, em busca de novas descobertas. Esta falta de leitura deve-se a dificuldade do domínio das línguas para ter acesso aos livros científicos, por parte dos estudantes e dos docentes, por fim, está a crescer muito, no meio dos estudantes “a falta de honestidade científica”, todos os trabalhos serão consultados por via do Google. O plágio e copy and paste ainda que sejam crimes, toleram-se nas nossas instituições educativas.
  5. Por último, não há política da divulgação dos livros, com preços acessíveis aos consumidores em Timor-Leste, e mais concretamente para os docentes e estudantes.
  6. Fomentar ainda a discriminação social na sociedade timorense.

Podemos constatar esta segregação no panorama atual de Timor: por um lado, uma desigualdade ao nível económico: há ricos e pobres. A gravidade de tal situação está no facto de os ricos se tornarem cada vez mais ricos à custa dos pobres; por outro lado,  uma desigualdade ao nível social, isto é, a má distribuição dos bens da nação. A sua implicação na área da educação, a classe média e das elites têm o poder económico e financeiro para ter acesso a uma educação de qualidade, por exemplo, frequentam as escolas internacionais ou são enviados os filhos para fora do país, enquanto, os “kbiit laek” – famílias economicamente desfavorecidas – continuam a ser marginalizados na sociedade, para eles são criadas as escolas públicas que não têm condições mínimas para efetuarem o processo de ensino e aprendizagem conforme o padrão de qualidade internacional.

Assim,  perdemos a noção do espírito fraterno e solidário da resistência e o vínculo inquebrantável que então estabeleceram entre os timorenses na época da luta, para exigir os nossos direitos mais fundamentais: (1) direito para viver  (right for survival), (2) direito de proteção (right for protection), (3) direito de participação (right for participation), (4) direito para se desenvolver (right for development). Em suma, juridicamente e políticamente, não implementamos com rigor a magna charta da Declaração dos Direitos Humanos, que tão desejada por todos sob a opressão da Indonésia. (Parte III)

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