Afmend Sarmento.

Por Afmend Sarmento

3. Criando o estigma social na sociedade.

O fenómeno social na sociedade atual, podemos reparar que as escolas de qualidades são designadas como escolas dos ricos e das classes das elites, por exemplo, a Escola Portuguesa de Díli, Díli International School ou Colégio Santo Inácio de Loyola Kasait. As escolas cobridas com capím, sem mesas nem cadeiras, são construidas para as famílias economicamente desfavorecidas ou ‘kbiit laek. Em suma, a sociedade começa a criar o estigma social que esta escola é boa e aquela é má. Assim, na sua implicação prática os filhos dos ricos e das elites não frequentam as escolas sem qualidades e todos são enviados para as escolas internacionais ou católicas.

4. A elevada custo de propinas

As escolas/universidade que cobram a elevada taxa de propinas são idênticas como as escolas de qualidade. Isto implica uma grande parcela da sociedade é excluida a ter acesso a uma boa educação, devido a carência económica das famílias.

Assim, surge a questão inqueitante que é a comercialização da educação, isto é, as fundações das instituicões educativas, as vezes interessam apenas pelos lucros em detrimento da qualidade em si, assim substituem a verdadeira cultura académica por uma cultura económica, todo o esforço é para obter os benefícios económicos, pois, a educação é um campo muito fértil para se comercializar aqui em Timor-Leste.

5. Inexistência do investimento na investigação científica.

O contexto socio-económico de Timor-Leste pode ser encarado como um campo muito fértil para os investigadores realizarem investigação contextualizada à realidade nacional é de grande importância em diversas áreas.

Nesta linha de pensamento, as instituições de ensino superior devem ser o motor da inovação, do pensamento crítico, da ciência e da tecnologia aplicada à realidade e às necessidades do desenvolvimento socio-económico de Timor-Leste. A nível global, a qualidade das instituições de ensino superior está correlacionada com a qualidade das pesquisas científicas realizadas no seio dessas instituições, pelos seus docentes e também pelos seus estudantes. Não há ensino superior de qualidade sem investigação relevante.

Contudo, o próprio Governo nem as fundações das instituições educativas não disponibilizam fundos de pesquisas para facilitarem os pesquisadores, nomeadamente os docentes e estudantes para desvendar sobre a maior riqueza que Timor-Leste possui.

Em gesto conclusivo, faço esta observação de que na tradição timorense, pensa-se que a educação consiste apenas em proferir palavras, isto é, aprender a cartilha na escola, mas antes de mais nada é ensinar “a arte de viver”, isto é, viver segundo determinados princípios e valores. Os sábios gregos costumavam ensinar aos seus discípulos que, para além das causas, existem valores que são incutidos no padrão da qualidade de vida, que devem ser seguidos pelos cidadãos para a construção de um país justo, próspero, fraterno e solidário. Estes valores são adquiridos e transmitidos pela Educação, como locus privilegiados para formar o caráter de todos os seres humanos: quer ser individual quer ser social na lógica de Durkheim.

A educação constitui um dos principais instrumentos para o desenvolvimento económico, social e político de Timor-Leste, por isso, pretende-se construir um novo Capital Humano baseado nas habilidades e atitudes laborais e de cidadania; saber fazer, saber estar, saber ser e saber conviver nesta  sociedade timorense. Para tal, a retórica política como “a Educação é o pilar da consolidação da Identidade e do Desenvolvimento da Nação” deve tornar-se uma praxis aos líderes para investir mais na Educação. Conforme a lógica consagrada no PEDN 2011-2030 sobre o Capital Social:  “A verdadeira riqueza de qualquer Nação é a força do seu povo. A maximização da saúde, educação e qualidade de vida gerais do povo timorense é essencial para se conseguir uma Nação justa e desenvolvida”. Portanto, a maior riqueza da nação não é só os recursos naturais como petróleo e gás, mas sobretudo o seu próprio povo que é culto, instruído e sábio, que “permitam, no futuro, virem a ter vidas saudáveis e produtivas, contribuindo de forma activa para o desenvolvimento da Nação”, por isso, os políticos devem optar pela Educação como setor-chave para o desenvolvimento sustentável de Timor-Leste, a fim de transformar o rendimento excepcional do petróleo e gás em capital humanos, lembrando o apelo feito por Dom Basílio do Nascimento, no I Congresso Nacional da Educação: “um país que não aposte e invista na educação, será um país sem alma e manter-se-á estagnado a baixo do nível mínimo do conforto material e espiritual. (…), afirmar que a Educação é o fundamento, é a base da libertação do homem da sua miséria material e espiritual, da sua promoção, (…),  na sua dimensão local e global[1]”, seguindo a Pedagogia da Libertação defendida por Paulo Freire: “Educação não transforma o mundo, Educação muda as pessoas. As pessoas transformam o mundo”. Por forma a tornar Timor-Leste numa economia competitiva, de alta produtividade, isto é, uma economia competitiva, assente na produtividade da mão-de-obra e na eficiência das organizações, com cidadãos com capacidade de gerar e absorver inovações científicas, tecnológicas, administrativas do nosso tempo; uma economia não dependente dos recursos naturais, nomeadamente do rendimento petrolífero.

Todos temos de dar o nosso contributo para que seja concretizada a visão sonhada e definida para a nossa Nação a fim de, em 2030, Timor-Leste tornar-se-á um país com rendimentos médio-altos, com uma população saudável, instruída e segura.

Bibliografia

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[1] MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, CULTURA, JUVENTUDE E DESPORTU, I Congresso Nacional da Educação, Díli, 29 a 31 de outubro de 2003, 172-180. (*)

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